A era da informação é fantástica. Na velocidade de um “click” e no leve movimentar de um dedo, podemos acessar Zetabytes de informação: no ano de 2011, a humanidade produziu 1,9 Zetabytes. Traduzindo isso para uma unidade mais acessível; 1,9 Zetabytes equivalem a 57.5 bilhões de ipads (cada unidade com um HD de 32 Gigabytes). Com essa quantidade de “ipads” podemos construir uma montanha 238 vezes maior do que o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro.
Ainda assim, as respostas à pergunta que inicia esse texto não são claras.
Por um lado, “ruralistas” defendem a expansão das áreas agrícolas em detrimento de florestas e serviços ambientais; afirmam enfaticamente que sem esta, o Brasil e o mundo passarão fome em um futuro próximo. Por outro lado, “ambientalistas” dizendo que não; há área suficiente para produzir alimentos e salvaguardar os ecossistemas e os serviços que estes executam desde que a agricultura seja feita de forma racional.
Ambas as faces da moeda tem seus argumentos e agendas específicas, e como tal, tem uma forte tendência a puxar a brasa para sua própria sardinha.
Enquanto isso, a pergunta permanece: tem sardinha pra todo mundo no Brasil?
Decidido a escalar 238 morros Pão de Açúcar de informação para encontrar a resposta, carimbei meu passaporte como “cientista” e parti em uma expedição numérica.
O primeiro destino: Qual a quantidade de alimentos produzida em nosso país?
Preparado para subir uma montanha a pé e sem cordas, dei de cara com um teleférico envidraçado para apreciar a paisagem: cheguei ao FAOSTAT (faostat.fao.org), órgão das Nações Unidas responsável pelas estatísticas referentes à alimentos e agricultura em mais de 200 países.
Foi fácil chegar a dados Brasileiros de 2007 (os mais recentes). Com dois ou três “clicks”, cheguei a uma tabela com mais de 100 itens, com dados de produção detalhados desde algodão a vegetais, passando por óleos, carnes, frutas e castanhas.
O segundo destino já veio em forma de resposta, na mesma tabela: colunas apresentando a disponibilidade diária por habitante de calorias, gorduras, proteínas e quantidade de alimentos.
Em 5 minutos, meu teleférico-bala envidraçado com poltronas confortáveis me deixou no 237o Pão de Açucar. Descí, e caminhando decidí compilar apenas alguns alimentos que compõe a dieta básica dos brasileiros. O resultado está na tabela a seguir:
Produção de alimentos Brasil 2007
Minha aventura numérica durou menos do que a degustação de um sonho com goiabada. Tão fácil quanto apreciar maravilhas da panificação como sonhos e pães de açúcar, dá para concluir nos dados de 2007 que a produção de alimentos é suficiente para alimentar a população brasileira, com muita folga.
Contabilizando apenas 21 itens de mais de 100, montando uma cesta bem básica de alimentos, somos capazes de suprir as quantidades de proteínas de um adulto brasileiro de 70Kg todos os dias, com folga (“diferença”, na tabela). A mesma situação para o fornecimento de calorias e gorduras.
Note que em “Total” (Kg/capita/ano), produzimos o equivalente a 635 Kilos de alimentos de qualidade para cada brasileiro; por ano. Se dividirmos esse valor por 365, chegamos em 1,73Kg de alimento por dia; o que representa três lautas refeições diárias de mais de meio quilo cada uma.
Observando o Total disponível de Kcal/capita/dia, é evidente que a agricultura brasileira já produz o equivalente às necessidades diárias de um adulto de 70Kg que realiza esforço mediano; ou seja, 2.500 calorias diárias.
É importante destacar que não foram consideradas ineficiências no cálculo; ou seja, perdas no transporte, indústria, desperdício etc. Mas por outro lado, também não consideramos as taxas de obesidade e de pessoas que dispõe de bem mais do que sua dose de alimentos diária necessária à sobrevivência.
Sonhos, sardinhas e pães doces a parte, a brincadeira acima certamente é tão inconsistente quanto uma massa de pão com excesso de água. Um bom padeiro sabe que dalí sairá um bom pão, bastando acrescentar farinha e sovar bastante.
Da mesma forma, os dados simplificados apontam uma direção: Há alimento para todos sim; e com sobras. Mas ainda assim, temos brasileiros passando fome todos os dias. E não é por falta de área agricultável; nem por falta de tecnologia.
Por que será então?