Tempo de plantio das águas no Gralha Azul!! As chuvas vieram cedo este ano, e esta semana (6 a 12 de outubro) demos início ao plantio de grãos, adubo-verde, mudas de árvores frutíferas e árvores para poda e lenha. Estamos há aproximadamente 2,5 anos cuidando e acarinhando as terras do Gralha, e quero contar neste texto um pouco dessa pequena história de amor e reverência ao chão que pisamos quase todos os dias.
Os solos do Gralha Azul foram utilizados durante mais de 25 anos como pastagem, sem nenhum manejo a não ser a roçada anual para inibir o crescimento de plantas competidoras do pasto de brachiária. Quando compramos a terra e iniciamos os trabalhos por aqui, a análise de solo comprovou o que já observávamos no campo: acidez extrema (pH 4,0), V% 9, e minerais ( Ca, MG, K, P) todos baixíssimos. Ananda, nossa amiga também agrônoma até falou: "essa terra tem cheiro de terra ácida". Não era à toa que as formigas cortadeiras estavam vorazes, e o sapé e o capim rabo de burro se alastravam pela pastagem. Decidimos começar o manejo com uma aragem e gradagem com junta de boi (estamos numa área montanhosa e a topografia da propriedade é bastante acentuada) para dar uma "quebrada" nas gramíneas e conseguir plantar. Optamos por não corrigir o solo com calcário e investimos apenas num coquetel de sementes de adubo-verde para tentar dar um "start" na atividade biológica do solo. Crotalarea Juncea, Crotalarea Spectabilis, lab-lab, feijão de porco, milheto e girassol foram plantados com matraca após a gradagem. Feijão guandu foi plantado em nível no terreno, em linhas distantes 2m uma da outra, para que pudesse ser aproveitado por mais de um ano, através de podas anuais. O resultado não foi muito satisfatório: sem corrigir a acidez o adubo verde cresceu pouquíssimo, o pouco que cresceu foi devorado pelas formigas (aqui no Gralha elas comem até babosa e araucária!!!) e as gramíneas voltaram com tudo. Depois de muito pensar, estudar, discutir com Anandinha e receber as visita iluminada de nosso grande amigo Pete Webb, que nos abriu os olhos para o movimento das águas superficiais e subterrâneas aqui do sítio, optamos por uma outra estratégia de intervenção: agroflorestas ou pequenas ilhas de árvores nos pontos de "encontro das águas" no terreno, aléias de árvores frutíferas e adubo verde intercaladas com faixas de plantios anuais de grãos e roçados. E calcário. Sim, sucumbimos a tanta acidez.
Nas linhas de árvores frutíferas será plantado adubo verde entre as plantas (este ano plantaremos feijão de porco) e ao redor das mudas plantaremos tanchagem (uma plantinha espontânea que ninguém dá bola, mas é uma poderosa corretora de acidez) e confrei pra bagunçar um pouco o ataque das formigas. A distribuição das frutíferas obedecerá aos critérios de necessidade de irrigação, resistência à geada, intensidade de manejo e porte das árvores. Intercalando com as linhas de frutíferas, estamos plantando linhas de árvores e arbustos para poda (leucena, mamona, amora, feijão guandu e hibiscus) que também servirão de adubação verde. Entre estas linhas de frutíferas e linhas de árvores de poda se formarão faixas de aproximadamente 10m que serão usadas para o plantio de grãos: girassol, milho, amendoim, sorgo e roçado: mandioca, abóbora, batata-doce etc.
Cultivar o solo do Gralha tem sido uma experiência regeneradora, não só para os próprios solos, mas também para nós. Enriquecer a biodiversidade e sobretudo a agrobiodiversidade no espaço de terra que nos foi conferido ao cuidado por Deus tem ampliado nossos horizontes de inspiração e conexão ao que realmente é fundamental. É um retorno ao lar. Como explica Vandana Shiva em seu livro "Monoculturas da Mente", a monocultura dos habitats humanos são um espelho-reflexo de seus pensamentos aprisionados em um único padrão. E os pensamentos padronizados são incapazes de produzir algo além do que monoculturas. A manutenção e recuperação da biodiversidade tem efeitos não só biológicos e ecológicos, mas em toda a existência filosófica e mental dos seres humanos.
E o solo é a base de todo este processo. O que a edição de setembro deste ano da revista National Geografic ressaltou em sua reportagem de capa: que o cuidado com o solo é a base da sobrevivência da humanidade, a grande mestra Ana Primavesi, já dizia nas palavras finais de seu livro "Manejo Ecológico do Solo" de 1979: "O descuido dos solos e a destruição de sua bioestrutura não somente tem reflexos graves na economia rural. Tem reflexos calamitosos na saúde geral, porque produtos biologicamente incompletos nutrem menos e não contribuem à saúde dos que os consomem. A população perde sua vitalidade, sua inteligência, seu dinamismo e sua força. Solos destruídos, povos indolentes! E povo que descuida de sua terra destrói a si mesmo... A natureza em seus caprichos e mistérios, condensa em pequenas coisas o poder de dirigir as grandes, nas sutis a potência de dominar as mais grosseiras...Assim, a explosão de uma coisa ínfima como um átomo, chega a arrasar cidades enormes e a esterilizar regiões inteiras...E a simples destruição dos grumos da superfície do solo chega a destruir povos e países, trazendo a fome, a miséria e a doença e como conseqüência a escravidão."
Seguindo estas palavras, estamos cuidando de cada grumo de terra no Gralha Azul, esperançosos de que as mentes e os corações, assim como a terra cultivada, se abram para a biodiversidade e para a vida, e nos dêem muitos frutos.